domingo, 29 de junho de 2014

Gusdorf e a responsabilidade do professor frente ao chamamento à existência do aluno.

"O poeta romântico alemão Jean Paul Richter conta como um dia, em sua infância, quando estava na entrada da propriedade paterna, foi sacudido por uma súbita iluminação: 'Eu sou eu.' 'O meu eu, acrescenta, tinha se apercebido de si pela primeira vez e para sempre' A experiência espiritual surgiu aqui em toda a sua pureza, fora de qualquer fórmula: a criança descobriu que tinha alma. Era apenas o começo de um a longa aventura em que iriam se desenvolver as tentativas e os erros de uma personalidade em busca de uma vida na medida de sua existência íntima. As profissões de fé virão depois: cada um deve escolher aquela que lhe for mais conveniente ou menos inconveniente. Mas, antes de qualquer debate ou engajamento, parece possível definir uma zona da consciência de si que seria também o ponto de partida e de chegada, o centro de gravitação da experiência espiritual em geral. Trava-se um combate em que cada um é, para si mesmo, a vitória ou a derrota.
"Se a educação, no sentido mais amplo do termo, tem por finalidade promover o advento da humanidade do homem, deveria organizar-se em função dessa experiência espiritual fundamental. Não lhe cabe forçar as coisas, pois somente o interessado pode descobrir e recorrer a certezas que só a ele pertencem. Mas o professor deve estar atento ao acontecimento: deve fazer perguntas e, muitas vezes, sugerir respostas, mantendo-se a uma distância respeitosa. Queira-o ou não, faz parte desse debate em que a criança o toma como testemunha de suas inquietações e angústias. Sob a máscara do calendário ou do trabalho escolar e, na maior parte das vezes, indiretamente, um confronto incessante se dá entre o jovem e o professor, ao qual reconhece uma autoridade ligada ao saber e à experiência. O professor tende a esquivar-se, argumentando que este tipo de debate não lhe diz respeito, que não está aí para isso. Mas, mesmo que se disponha a não ser receptivo à interrogação muda, sua atitude negativa ainda constitui um testemunho, na medida em que é interpretada num sentido ou noutro, aconteça o que acontecer. O professor incorre numa responsabilidade inegável e que, em certos casos,se ele não intervém, pode ter consequências trágicas. Aquele que se recusa a comprometer-se, torna-se culpado pela não-assistência a alguém em perigo; porém aquele que aceita responder ao apelo, também não tem tarefa fácil."

Gusdorf, Georges. Professores para quê?: para uma pedagogia da pedagogia. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Gusdorf e sua visão sobre ser mestre.

"Outro aluno de Alain explica à sua maneira a autoridade do ilustre professor: 'O ensino de Alain, escreve ele, dirigia-se a nós, não como alunos, mas como seres humanos. Éramos preparados para a existência. Em nenhuma outra parte pude sentir melhor o poder que o homem possui de dar existência ao homem através da maneira de falar. Deixamos de ser pobres diabos, entregues, como era habitual, à compaixão desdenhosa e à nota baixa. Passamos a nos sentir pequenos homens, homens simplesmente, seus iguais, cuja livre apreciação era admitida e solicitada (...). Todas as observações, todas as objeções eram permitidas, levadas a sério, co uma comovente tendência para as valorizar e as realçar.'"

André Bridoux, Hommage à Alain, Nouvelle Revue Française, Setembro de 1952, p. 30. In: Gusdorf, Georges. Professores para quê?: para uma pedagogia da pedagogia. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Gusdorf e sua visão sobre a aquisição do saber.

"Parece claro que a aquisição do saber corresponde, para cada um, a uma busca do ser. Quando Sócrates declara que 'é impossível a um homem procurar tanto o que sabe quanto o que não sabe', sua dialética comete o erro de pressupor uma lógica do sim e do não, uma lógica intelectualista que exclui qualquer terceira posição. É claro qua a criança sabe e não sabe sua lição, mas o princípio do terceiro excluído não se aplica à vida humana no seu conjunto, pois ela se processa no imenso intervalo que separa o saber do não-saber. Às palavras de Sócrates opõe-se curiosamente a célebre frase do Jesus pascaliano: 'Se já não me tivesses encontrado, não me procurarias.' A questão existencial não prossegue sem o pressentimento de uma resposta. Nesse sentido, também Marx pôde dizer: 'A humanidade não se coloca questões paras as quais não possa obter respostas.'"

Gusdorf, Georges. Professores para quê?: para uma pedagogia da pedagogia. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

sábado, 24 de maio de 2014

Gusdorf e sua visão sobre ser mestre; primeiros argumentos.

"O Sócrates platônico do Mênon resume desse modo o paradoxo de todo o ensino: 'É impossível ao homem procurar tanto o que sabe quanto o que não sabe. Por um lado, o que sabe não procurará porque já o sabe, e, nesse caso, nenhuma necessidade tem de o procurar; por outro lado, também não procurará o que não sabe, pois que igualmente não sabe o que deve procurar.' Ninguém pode aprender ou ensinar nada a ninguém, é o que nos diz o patriarca da pedagogia no Ocidente, e a civilização escolar, em toda a sua amplidão, surge-nos como uma gigantesca mistificação.


Sócrates, mestre da ironia, não fica por aqui. Para confirmar sua tese, propõe um célebre exercício de alta escola educativa, dando uma lição de geometria a um jovem escravo sem formação matemática. Este, perante algumas figuras traçadas na areia e metodicamente interrogado, define um certo número de verdades muito próximas ao teorema de Pitágoras. A habilidade do examinador é tal que, de pergunta em resposta, o jovem escravo parece tirar de seu íntimo tudo o que Sócrates lhe faz dizer. A conclusão impõe-se: nada veio de fora enriquecer aquela inteligência, que descobriu por si mesma as relações constitutivas do mundo matemático. Elas já estavam nele. Só aguardavam, para virem à consciência, a invocação do encantador.


É preciso ser um pedagogo excepcional para negar desse modo toda a pedagogia. E, sem dúvida, há aí uma primeira lição: o melhor mestre não é aquele que se impõe, que se afirma como dominador do espaço mental, mas, ao contrário, o que se torna aluno de seu aluno, aquele que se esforça para acordar uma consciência ainda ignorante de si mesma e de guiar o seu desenvolvimento no sentido que melhor lhe convém. Em vez de captar a boa vontade inocente, procura respeitar a espontaneidade natural do jovem espírito que tem como missão libertar. Sócrates, que se apaga diante se seu aluno, não é um mestre menor que aquele que se impõe e reina por prestígios fáceis."

Gusdorf, Georges. Professores para quê?: para uma pedagogia da pedagogia. São Paulo: Martins Fontes, 2003. 

Georges Gusdorf: filósofo e epistemólogo francês nascido em 1912 perto de Bordéus, de família judia originária da Alemanha. Faleceu em 17 de Outubro de 2000 aos 88 anos. Sofreu influência de Kierkegaard. Foi aluno de Bachelard e professor de Althusser na Escola normal Superior (ENS) de Paris.