"O poeta romântico
alemão Jean Paul Richter conta como um dia, em sua infância, quando
estava na entrada da propriedade paterna, foi sacudido por uma súbita
iluminação: 'Eu sou eu.' 'O meu eu, acrescenta, tinha se
apercebido de si pela primeira vez e para sempre' A experiência
espiritual surgiu aqui em toda a sua pureza, fora de qualquer
fórmula: a criança descobriu que tinha alma. Era apenas o começo
de um a longa aventura em que iriam se desenvolver as tentativas e os
erros de uma personalidade em busca de uma vida na medida de sua
existência íntima. As profissões de fé virão depois: cada um
deve escolher aquela que lhe for mais conveniente ou menos
inconveniente. Mas, antes de qualquer debate ou engajamento, parece
possível definir uma zona da consciência de si que seria também o
ponto de partida e de chegada, o centro de gravitação da
experiência espiritual em geral. Trava-se um combate em que cada um
é, para si mesmo, a vitória ou a derrota.
"Se a educação, no
sentido mais amplo do termo, tem por finalidade promover o advento da
humanidade do homem, deveria organizar-se em função dessa
experiência espiritual fundamental. Não lhe cabe forçar as coisas,
pois somente o interessado pode descobrir e recorrer a certezas que
só a ele pertencem. Mas o professor deve estar atento ao
acontecimento: deve fazer perguntas e, muitas vezes, sugerir
respostas, mantendo-se a uma distância respeitosa. Queira-o ou não,
faz parte desse debate em que a criança o toma como testemunha de
suas inquietações e angústias. Sob a máscara do calendário ou do
trabalho escolar e, na maior parte das vezes, indiretamente, um
confronto incessante se dá entre o jovem e o professor, ao qual
reconhece uma autoridade ligada ao saber e à experiência. O
professor tende a esquivar-se, argumentando que este tipo de debate
não lhe diz respeito, que não está aí para isso. Mas, mesmo que
se disponha a não ser receptivo à interrogação muda, sua atitude
negativa ainda constitui um testemunho, na medida em que é
interpretada num sentido ou noutro, aconteça o que acontecer. O
professor incorre numa responsabilidade inegável e que, em certos
casos,se ele não intervém, pode ter consequências trágicas.
Aquele que se recusa a comprometer-se, torna-se culpado pela
não-assistência a alguém em perigo; porém aquele que aceita
responder ao apelo, também não tem tarefa fácil."
Gusdorf, Georges. Professores para quê?: para uma pedagogia da pedagogia. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
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