Gusdorf e sua visão sobre ser mestre; primeiros argumentos.
"O Sócrates platônico do Mênon resume desse modo o paradoxo de todo o ensino: 'É impossível ao homem procurar tanto o que sabe quanto o que não sabe. Por um lado, o que sabe não procurará porque já o sabe, e, nesse caso, nenhuma necessidade tem de o procurar; por outro lado, também não procurará o que não sabe, pois que igualmente não sabe o que deve procurar.' Ninguém pode aprender ou ensinar nada a ninguém, é o que nos diz o patriarca da pedagogia no Ocidente, e a civilização escolar, em toda a sua amplidão, surge-nos como uma gigantesca mistificação.
"O Sócrates platônico do Mênon resume desse modo o paradoxo de todo o ensino: 'É impossível ao homem procurar tanto o que sabe quanto o que não sabe. Por um lado, o que sabe não procurará porque já o sabe, e, nesse caso, nenhuma necessidade tem de o procurar; por outro lado, também não procurará o que não sabe, pois que igualmente não sabe o que deve procurar.' Ninguém pode aprender ou ensinar nada a ninguém, é o que nos diz o patriarca da pedagogia no Ocidente, e a civilização escolar, em toda a sua amplidão, surge-nos como uma gigantesca mistificação.
Sócrates, mestre da
ironia, não fica por aqui. Para confirmar sua tese, propõe um
célebre exercício de alta escola educativa, dando uma lição de
geometria a um jovem escravo sem formação matemática. Este,
perante algumas figuras traçadas na areia e metodicamente
interrogado, define um certo número de verdades muito próximas ao
teorema de Pitágoras. A habilidade do examinador é tal que, de
pergunta em resposta, o jovem escravo parece tirar de seu íntimo
tudo o que Sócrates lhe faz dizer. A conclusão impõe-se: nada veio
de fora enriquecer aquela inteligência, que descobriu por si mesma
as relações constitutivas do mundo matemático. Elas já estavam
nele. Só aguardavam, para virem à consciência, a invocação do
encantador.
É preciso ser um
pedagogo excepcional para negar desse modo toda a pedagogia. E, sem
dúvida, há aí uma primeira lição: o melhor mestre não é aquele
que se impõe, que se afirma como dominador do espaço mental, mas,
ao contrário, o que se torna aluno de seu aluno, aquele que se
esforça para acordar uma consciência ainda ignorante de si mesma e
de guiar o seu desenvolvimento no sentido que melhor lhe convém. Em
vez de captar a boa vontade inocente, procura respeitar a
espontaneidade natural do jovem espírito que tem como missão
libertar. Sócrates, que se apaga diante se seu aluno, não é um
mestre menor que aquele que se impõe e reina por prestígios fáceis."
Gusdorf, Georges. Professores para quê?: para uma pedagogia da pedagogia. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

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