sábado, 24 de maio de 2014

Gusdorf e sua visão sobre ser mestre; primeiros argumentos.

"O Sócrates platônico do Mênon resume desse modo o paradoxo de todo o ensino: 'É impossível ao homem procurar tanto o que sabe quanto o que não sabe. Por um lado, o que sabe não procurará porque já o sabe, e, nesse caso, nenhuma necessidade tem de o procurar; por outro lado, também não procurará o que não sabe, pois que igualmente não sabe o que deve procurar.' Ninguém pode aprender ou ensinar nada a ninguém, é o que nos diz o patriarca da pedagogia no Ocidente, e a civilização escolar, em toda a sua amplidão, surge-nos como uma gigantesca mistificação.


Sócrates, mestre da ironia, não fica por aqui. Para confirmar sua tese, propõe um célebre exercício de alta escola educativa, dando uma lição de geometria a um jovem escravo sem formação matemática. Este, perante algumas figuras traçadas na areia e metodicamente interrogado, define um certo número de verdades muito próximas ao teorema de Pitágoras. A habilidade do examinador é tal que, de pergunta em resposta, o jovem escravo parece tirar de seu íntimo tudo o que Sócrates lhe faz dizer. A conclusão impõe-se: nada veio de fora enriquecer aquela inteligência, que descobriu por si mesma as relações constitutivas do mundo matemático. Elas já estavam nele. Só aguardavam, para virem à consciência, a invocação do encantador.


É preciso ser um pedagogo excepcional para negar desse modo toda a pedagogia. E, sem dúvida, há aí uma primeira lição: o melhor mestre não é aquele que se impõe, que se afirma como dominador do espaço mental, mas, ao contrário, o que se torna aluno de seu aluno, aquele que se esforça para acordar uma consciência ainda ignorante de si mesma e de guiar o seu desenvolvimento no sentido que melhor lhe convém. Em vez de captar a boa vontade inocente, procura respeitar a espontaneidade natural do jovem espírito que tem como missão libertar. Sócrates, que se apaga diante se seu aluno, não é um mestre menor que aquele que se impõe e reina por prestígios fáceis."

Gusdorf, Georges. Professores para quê?: para uma pedagogia da pedagogia. São Paulo: Martins Fontes, 2003. 

Georges Gusdorf: filósofo e epistemólogo francês nascido em 1912 perto de Bordéus, de família judia originária da Alemanha. Faleceu em 17 de Outubro de 2000 aos 88 anos. Sofreu influência de Kierkegaard. Foi aluno de Bachelard e professor de Althusser na Escola normal Superior (ENS) de Paris.

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